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Praia da Areia Preta em Guarapari: a areia que criou a fama

O que é a areia monazítica, de onde veio o apelido de Cidade Saúde, o que a ciência mediu na praia e como encaixar a visita num passeio pelo Centro.

31/10/2026

Vista aérea da orla central de Guarapari, com a Praia das Castanheiras, a praça à beira-mar e a faixa de areia em direção à Praia da Areia Preta

A Praia da Areia Preta é uma praia urbana e pequena no Centro de Guarapari, e a cor escura que dá nome a ela vem de minerais pesados misturados à areia clara, entre eles a monazita, que contém tório e emite radiação natural. Foi essa areia que, a partir dos anos 1930, ajudou a transformar uma cidade portuária em destino de turismo de saúde e rendeu a Guarapari o apelido de Cidade Saúde. Hoje a visita é curta, gratuita e combina bem com as praias vizinhas e o Centro Histórico, a cerca de 15 minutos de carro das cabanas.

O que é a areia monazítica da Areia Preta?

As manchas escuras que aparecem sobre a areia dourada são concentrações de minerais pesados: ilmenita, zirconita, granada e monazita. A monazita é um fosfato rico em terras raras e em tório, elemento que emite radiação gama de forma natural. Por serem mais densos, esses grãos se separam da areia comum com o vaivém das ondas e formam faixas e manchas que mudam de lugar conforme a maré e a época do ano. Por isso a praia nunca tem exatamente o mesmo desenho: em alguns dias a faixa escura é larga e contínua, em outros aparece só em manchas perto das pedras e da linha d'água.

De onde veio o apelido Cidade Saúde?

A riqueza mineral chamou atenção antes do turismo. As areias de Guarapari foram identificadas em 1898 e, a partir de 1906, passaram a ser beneficiadas em escala industrial por empresas de capital estrangeiro e, mais tarde, pela Mibra, a Monazita e Ilmenita do Brasil, que extraía e exportava o minério. A operação passou depois para a Nuclemon, subsidiária da estatal Nuclebrás, e só terminou em 1986, depois de uma campanha da prefeitura pelo fim da extração nas praias do município.

Em paralelo, o médico Antônio da Silva Mello, que havia pesquisado os efeitos da radioatividade no Instituto de Radium de Berlim, passou a escrever sobre as areias de Guarapari na década de 1930, em revistas de circulação nacional como O Cruzeiro. Os artigos atribuíam à areia efeito sobre dores articulares e reumáticas, e a cidade deixou de ser vista apenas como porto para virar destino de veraneio e tratamento. Nos anos 1960 e 1970, o balneário atraía turistas em busca de alívio para reumatismo e artrite, e ainda hoje é comum ver banhistas com o corpo coberto pela areia escura, por tradição. O Radium Hotel, inaugurado em dezembro de 1953 de frente para a praia, levou a ideia até no nome. A história do hotel e do casario ao redor está no roteiro do Centro Histórico de Guarapari.

As mesmas areias escuras que abasteceram mineradoras por oito décadas encheram os hotéis de veranistas.

A areia preta é perigosa ou faz bem à saúde?

A radiação é real e medida. Pesquisas registram doses entre 10 e 30 microsievert por hora sobre as areias de Guarapari, com pontos isolados de concentração mais alta e valores maiores no verão do que no inverno. São níveis bem acima do fundo natural médio, e a dose recebida depende do tempo de contato. Um estudo publicado em 2024 no World Journal of Nuclear Medicine comparou indicadores de saúde de Guarapari com os de Campos, Rio Grande e Ilhéus e não encontrou aumento de mortalidade por câncer, de tumores infantis ou de malformações congênitas na cidade; segundo os autores, nenhum dos indicadores avaliados mostrou diferença estatisticamente significativa.

Do outro lado, não há comprovação científica de efeito terapêutico. A fama de cura pertence à história do turismo local, não à medicina, e a tradição de se cobrir com a areia escura deve ser lida assim: como costume, não como tratamento. Na prática, o programa mais comum de quem visita é caminhar pela faixa escura para ver os minerais de perto e estender a canga onde for mais confortável, sem esquecer protetor e chapéu nas horas de sol forte.

Como visitar a Areia Preta saindo das cabanas?

  1. Saia de manhã: o Centro fica a cerca de 8 km das cabanas, uns 15 minutos de carro, e o trânsito piora depois do almoço em feriados e fins de semana.
  2. Estacione antes de entrar nas ruas mais estreitas do Centro e siga a pé pela orla; na alta temporada, vagas perto das praias são disputadas, e as praias centrais ficam coladas umas nas outras.
  3. Caminhe pela faixa escura junto às pedras, onde a concentração de minerais costuma ser mais visível, e confira o boletim de balneabilidade antes de entrar na água; com crianças, redobre a atenção perto da Pedra da Siribeira, onde o mar não é raso.
  4. Siga a pé para a Praia do Meio e a Praia das Castanheiras; na maré baixa, o recife entre as duas forma piscinas naturais rasas, com peixinhos, ouriços e estrelas-do-mar, e vale consultar a tábua de marés na véspera e ir com calçado para pedra.
  5. Feche o passeio no Parque da Areia Preta, onde fica o [Mercado Municipal de Peixe](/diario/mercado-peixe-guarapari-perocao), para levar o almoço ou o jantar para a cabana.

O que mais dá para fazer no mesmo passeio?

A Areia Preta funciona melhor como parada de um roteiro do que como praia para o dia inteiro: é pequena, cercada pela cidade e muito disputada na alta temporada. No mesmo raio de caminhada ficam as praias do Meio e das Castanheiras, a praça à beira-mar, o Radium Hotel, a Igreja Matriz e as ruínas que contam a fundação jesuíta da cidade.

Diante da fachada do Radium, vale lembrar a trajetória do prédio: ele começou a ser erguido em 1947 para abrigar uma escola naval, abriu em dezembro de 1953 como hotel-cassino de luxo, com 140 quartos, e fechou as portas pela primeira vez em 1964. Desde 1998 é protegido pelo Estado como patrimônio histórico do Espírito Santo. Em duas ou três horas dá para ver a areia que fez a fama de Guarapari, entender por que ela atraiu mineradoras e médicos, e voltar às cabanas a tempo de uma tarde mais tranquila na praia do bairro.

Uma base tranquila a 15 minutos do Centro de Guarapari

As cabanas Cavalo Marinho e Ouriço do Mar ficam na zona norte de Guarapari, perto o bastante do Centro para um passeio de manhã e longe o bastante do movimento para descansar depois. Reserva direta com atendimento humano.

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Perguntas frequentes

Por que a areia da Praia da Areia Preta é escura?

A cor vem de minerais pesados misturados à areia clara, como monazita, ilmenita, zirconita e granada. Por serem mais densos, eles se separam com o movimento das ondas e formam faixas e manchas escuras, que mudam de lugar conforme a maré e a estação do ano.

A areia monazítica de Guarapari é radioativa?

Sim. A monazita contém tório, que emite radiação gama natural, e as medições registram entre 10 e 30 microsievert por hora sobre a areia. Um estudo publicado em 2024 não encontrou aumento de câncer, tumores infantis ou malformações em Guarapari em comparação com outras cidades brasileiras.

A areia preta trata reumatismo ou outras doenças?

Não há comprovação científica de efeito terapêutico. A fama veio dos artigos do médico Antônio da Silva Mello, publicados a partir dos anos 1930, e do turismo de saúde das décadas seguintes. Cobrir o corpo com a areia é um costume da cidade, não uma indicação médica.

Por que Guarapari é chamada de Cidade Saúde?

O apelido nasceu dos artigos de Silva Mello sobre as areias monazíticas, que a partir dos anos 1930 atraíram visitantes em busca de alívio para dores articulares. A fama mudou o perfil da cidade, que deixou de ser vista apenas como porto para virar destino de veraneio, e o nome ficou mesmo sem respaldo científico.

Quanto tempo leva das cabanas até a Praia da Areia Preta?

Cerca de 15 minutos de carro, num trajeto de aproximadamente 8 km até o Centro de Guarapari. Em feriados e fins de semana de verão, vale sair de manhã e estacionar antes das ruas mais estreitas do Centro, seguindo a pé pela orla até as praias vizinhas.

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Fontes

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